sábado, 14 de abril de 2007


EU, MODO DE USAR.

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor, mas permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e me faça massagem nas costas. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, me conte piadas interessantes, mas não seja preconceituoso. Não perca tempo cultivando esse tipo de herança dos seus pais.Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre... que eu também gosto de ser contrariada (então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa pra fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei em você tudo o que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado. Você deve se esfolar às vezes seja qual for a sua idade. Leia, escolha os seus livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos freqüentes. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel pra você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes. Me enlouqueça uma vez por mês, mas me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rima com louca: loba, boba, rouca, boca... Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra missa... isso a gente vê depois... se calhar... Deixe-me dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você inquieto. Olhe para outras mulheres, mas não me impeça de fazer o mesmo, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos... eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar, experimente me amar...
(Mas essa caneta eu não devolvo. Quem escreve essa historia aqui sou eu).

(Martha Medeiros por Manuele Martins)

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